De volta à Gamboa

Aprendi a sambar na Praça da Harmonia aos 3 anos de idade. E todos curtiam.

Anos mais tarde, aprendi o que era trabalho na Rua do Propósito, que faz esquina com a Praça da Harmonia. Eu curtia pouco, quase nada.

Nos intervalos, o dono da gráfica, um sujeito mal-humorado, me deixava ler o Jornal do Brasil. Esse eu curtia. Curtia tanto que considerei trabalhar como jornaleiro só para ficar lendo jornais. Não havia referencial de jornalista no perímetro onde eu costumava circular. Preto então, tampouco.

Naquela época o JB tinha um caderno chamado “Ideias”, sobre livros e literatura. E aí pensei que talvez o bacana mesmo fosse trabalhar lá. E trabalhei. E também curti. Muito.

Agora, pense em um momento-chave que possa traduzir a sua caminhada, o meu talvez seja um lugar-chave: essa esquina aí, na Gamboa, região portuária do Rio de Janeiro. A poucos metros do Cemitério dos Pretos Novos e a uma pernada do antigo Cais do Valongo.

Embora cercado de história preta, a questão racial havia ficado da porta pra fora da minha casa. Na ausência de meu pai e de meu avô, ambos pretos e mortos precocemente, o que viesse a aprender sobre raça caberia somente a mim, o preto restante. E com a chegada do meu primeiro filho, entendi que eu não poderia ensiná-lo aquilo que não tinha conhecimento.

Mas algo que começa na junção da “harmonia” com o “propósito” não deve ser desprezado. Muito do que vivi nessas cinco décadas estava rascunhado naquele entroncamento. De certa forma, entendi que o novo rumo que eu gostaria de tomar deveria passar por ali. Partir dali.

Voltei às minhas raízes para reencontrar a minha história. 

Fui atrás do filosófico “de onde eu vim?” e me deparei com o instigante “para onde eu vou?”. E foi assim que fundei a Serra da Barriga, com o intuito de resgatar e revelar vidas pretas inspiradoras das quais deveríamos ter conhecimento há muito tempo.

É um bom momento para quem tem amor aos livros e às memórias. O abismo ficou pra trás e o vento está a nosso favor. Tenho sonhado com uma terra boa, fértil. Vou pegar essa trilha de novas histórias aqui.

Bora subir a serra juntos?

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