Imprima-se!

Assinar a boneca de um livro é simbólico: o momento em que o editor coloca o ponto final na produção. Boneca é o nome que se dá à última prova do livro, aquela que segue para a gráfica e serve de base para a impressão. Apesar de ser um ato rotineiro, sempre dá um frio na espinha. É tarefa solitária, a responsabilidade de dizer que não há mais nada a ser feito. Está sacramentado.

Quando o Jaime, meu sócio, me passou o original de “Na roda do samba” e pediu que cuidasse da produção, eu já sabia o quão especial seria esse processo. Um livro para lançar uma nova editora no mercado, uma obra já há tanto tempo fora de circulação, um autor negro desconhecido para os leitores de hoje. PRIMEIRO LIVRO. Frio na espinha.



Precisei mergulhar no texto, não quis delegar a preparação dos originais porque queria conhecer intimamente o Vagalume. Nessa fase inicial, a gente conhece o autor e entende as pistas, capta o que ele espera da gente. Mesmo nesse caso, um escritor já ausente, ou talvez ainda mais importante por isso, ele não está aqui para dar a própria opinião.

Cada livro uma escolha. O mesmo livro feito por equipes distintas irá produzir obras completamente diferentes. Difícil dizer que é possível fazer um trabalho como esse sem que ele leve a assinatura de cada um que colaborou. Por isso, paramos por um tempo para tentar localizar o único exemplar disponível, num sebo nos Estados Unidos, sem termos certeza se o receberíamos com condições de ser manuseado e lido. E foi!

Seguimos fiéis à obra original, mas com uma transgressão: criamos o caderno de fotos. Na edição de 1933 foi escolha do Vagalume reproduzir as fotografias dos personagens sobre os quais falava ao longo do livro. Fotos com baixa qualidade, mas claramente uma reverência àqueles personagens. Muitos se tornaram célebres, como Sinhô e Heitor dos Prazeres. Decidimos dar um destaque especial, mesmo não tendo imagens com qualidade ideal para impressão. Testamos, pensamos se valeria a pena. Será que o leitor entenderia que não era descuido, mas uma opção por perpetuar a memória daquelas pessoas? Decidimos bancar.

Depois de todas as decisões tomadas, a prova final sobre a mesa, eis que chega o momento: imprima-se? O trabalho com o livro não acaba nem quando termina. Depois da espera até receber os primeiros exemplares, aquela olhada rápida pra conferir o resultado, o medo de encontrar o erro até então escondido. Parece que acabou, mas é só o começo. Frio na espinha.

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