Para Leci Brandão

por Sara Paixão

O convite para vir ao blog da Serra da Barriga escrever sobre Leci Brandão é daqueles irrecusáveis. Desde que escolhi a sambista como tema da minha pesquisa de mestrado em relações étnico-raciais, nos tornamos próximas, embora ela ainda não saiba o quanto. Quando eu, filha da Dona Alexandrina, decidi investigar o que há por trás do apagamento midiático da filha da Dona Lecy, ainda não sabia que, apesar de a sambista ter nascido em Madureira, no Rio de Janeiro, ela tinha crescido e estudado aqui pertinho da minha casa, na Tijuca. Exatos 1,4 km separam o prédio onde moro da Escola Municipal Equador, onde Leci morou e cursou a educação infantil, enquanto a mãe trabalhava como servente.

No mesmo local, segundo conta Fernanda Kalianny Martins Souza na tese de metrado Estudo da trajetória de Leci Brandão (página 60-61), ela, ainda menina, foi vítima de um dos primeiros episódios de racismo de sua vida, ao participar de um concurso de redação. Leci, que foi alfabetizada pela própria mãe e tinha o hábito de ler jornais, escreveu um texto excelente, mas, apesar disso, não ficou em primeiro lugar.

“Algum tempo depois do concurso, Dona Lecy ficou sabendo por uma das professoras que não quiseram dar o prêmio de primeiro lugar para Leci. A questão que estava por trás dessa atitude era que a filha de uma professora havia ficado em segundo lugar e perguntavam-se como dar o primeiro lugar à filha negra da servente e o segundo para a filha branca da professora. Enquanto essa professora dizia que a Lecizinha – forma de diferenciá-la da mãe que possui o mesmo nome – devia receber o primeiro lugar, os outros professores insistiam que seria um absurdo.” –descreve Fernanda em sua tese.

Essa informação foi o primeiro soco no estômago, da série que venho acumulando desde que mergulhei na trajetória da artista. Ainda “coabitando” a mesma região, descobri que Leci foi aluna, durante o Ensino Médio, do tradicional Colégio Pedro II, da Tijuca. E o ambiente escolar está no topo da lista de locais em que os brasileiros afirmam mais ter sofrido a violência racial, segundo dados divulgados em 2023 pela Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (IPEC), contratada pelo Projeto SETA e pelo Instituto de Referência Negra Peregum. A cada 10 pessoas que relataram ter sofrido racismo no Brasil, 3,8 foram vítimas dessa violência no interior de escolas, faculdades ou universidades. Mais uma vez, com Leci não foi diferente. Em entrevista à repórter Patricia Martins, colaborada do site de Marina Kotsho, do UOL, em 5 de dezembro de 2023, a cantora e compositora revelou outra história de racismo e bullying:

“Eu era a única negra da minha turma, isso é uma coisa que me marcou bastante, eu ser uma menina pretinha, numa sala que tinha cerca de 40 alunos, por aí, e me botaram o apelido de ‘Tiziu’. Eu não sabia nem o que era Tiziu. Eu escutava as pessoas falarem ‘tiziu, tiziu, tiziu’, e fiquei sabendo que era um passarinho preto, que a gente não conhecia. Eu conheci através da escola, isso, na verdade, seria um bullying que fizeram comigo, mas eu não me importei com isso, né? Depois, acabou virando uma música, o apelido ‘Tiziu’.” – revelou Leci, mostrando ainda seu talento para transformar limão em limonada.

Em 1972, ela se tornou a primeira mulher a integrar a ala de compositores da Mangueira – escola onde também deixei meu coração e cuja quadra, conhecida como Palácio do Samba, está localizada a 3 km da minha casa. Em 1980, quando nasci, Leci já era uma cantora de sucesso – inclusive com música selecionada para trilha sonora de novela da TV Globo –, e uma das primeiras artistas a declarar publicamente sua orientação sexual e a abordar as uniões homoafetivas em músicas de sua autoria, como “As pessoas e eles” (1977), cuja letra diz: “E o amor chegou / Enquanto eles, os perseguidos / Incompreendidos / Num sorriso e num gesto / Não ligaram pro resto / E o amor chegou.” Isso tudo não impediu que ela continuasse sendo vítima do racismo: ao adentrar o prédio para visitar uma amiga, acompanhada da mãe, as duas foram impedidas de subir pelo elevador social do prédio situado à rua Doutor Otávio Kelly, 112, na Tijuca (cerca de 500 metros de onde eu morava na época).  Na ocasião, como conta a matéria do jornal O Globo, de 19 de setembro de 1980, ela decidiu prestar queixa na 19ª DP, situada à Rua General Espírito Santo Cardoso (exatamente a que eu residia).

“Na delegacia, o porteiro Arlindo Henrique da Silva, paraibano e analfabeto, disse que cumpriu ordens do síndico do edifício Justino Marques, e que indicou o elevador de serviço para Leci Brandão e sua mãe porque elas eram pretas e ele não sabia se eram duas empregadas.” – descreveu a matéria do jornal na época.

O caso foi amplamente divulgado pela imprensa, mas, ainda segundo O Globo, o porteiro foi autuado por “constrangimento ilegal”. Afinal, a Lei 7.716, que classificou o racismo como crime inafiançável, só foi promulgada em 1989.

Naquele mesmo ano, Leci Brandão havia composto “Zé do Caroço” – canção que viria a ser seu maior sucesso, feita em homenagem ao personagem homônimo, que morava em Vila Isabel, bairro vizinho ao nosso. Visitou a Polygram para mostrar essa e outras músicas, mas a gravadora se recusou a fazer seu álbum, considerado político, pesado demais pelos executivos da empresa. Cinco anos depois, ela consegue gravar, supera as dificuldades e se muda para São Paulo, onde vive até hoje.

Atualmente, Leci ocupa o gabinete batizado como Quilombo da Diversidade e foi eleita deputada estadual quatro vezes consecutivas pelo estado em que escolheu morar. Apesar de a distância geográfica entre nós ter aumentado, me sinto mais próxima dela como nunca.  O movimento de letramento racial me fez compreender que há muito tempo ela canta e compõe letras defendendo religiões de matriz africana, grupos minorizados e iniciativas de reparação histórica por meio das hoje chamadas ações afirmativas. Em setembro de 2024, Leci completará 80 anos, e eu  gostaria de ter a sorte e o axé de conseguir chegar perto dela fisicamente para dizer: obrigada por tanto, por tudo, por ser essa inspiração gigante para todas nós, mulheres negras que viemos depois, nascidas perto ou longe dela. Bênção, Leci!

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